Os Habitantes do Jurema

habitantes

Duas categorias de entidades espirituais têm seus assentamentos nas mesas de Jurema, os Caboclos e os Mestres.
Os Caboclos e Índios

“Fui pra mata, fui caçar
Atirei no que não vi
Acertei passo sagrado,
Era um Pitiguarí.

Mas, Tupã me perdoou
Hoje eu não caço mais
Me chamo Flecha Dourada,
Protetor dos animais.”
(Jurema de mesa)

Os Caboclos são identificados como entidades indígenas que trabalham principalmente com a cura através do conhecimento das ervas. Durante a estada destas entidades nos terreiros, incorporadas nos médiuns, dão passes e realizam benzeduras com ervas e folhagens. São associados às correntes espirituais mais elevadas, as que trabalham para o bem, mas que também podem ser perigosas quando usados contra alguém. Por isso são  temidos. Na antiguidade se tinha muito medo dos caboclos por causa das flechadas. A flechada de um índio é pior que o trabalho de um mestre…somente  algumas pessoas que sabem mexer e colocar a mão ali dentro da cumbuca.

Nas Mesas o caboclo é simbolizado por príncipes, estátuas de índios e apetrechos confeccionados por ameríndios ou inspirados neles como cocares, flechas, preacas, colares, etc. Os caboclos comem frutas, flores, mel, carne bovina ou peixe, que pode ser crua, cozida, ou assada na brasa. Com a introdução de sacrifício de animais nas práticas juremeiras, é comum oferecer-lhes pequenos animais como passarinhos, preás, coelhos e outro bichos de caça. São oferecidos ainda raízes como a mandioca, a batata doce e alimentos confeccionados a partir delas. Alguns juremeiros oferecem vinho branco a estas entidades, outros apenas sucos de frutas. Normalmente os caboclos não fumam e no momento das reuniões e giras a eles destinadas não se deve fumar; contudo alguns caboclos se utilizam destes elementos. No caso dos caboclos que utilizem do tabaco em seus trabalhos e nas oferendas, estes devem se fazer presentes na forma em que o caboclo em questão mais se agradar (cachimbo ou cigarro de palha ou charuto). Completam as oferendas as bugias ou inãs, as velas. Na incorporação vê-se três estereótipos relacionados ao gênero e a faixa etária destas entidades: Os caboclos crianças, sejam de um sexo ou de outro, descem pedindo mel, balas e frutas. São pouco ascéticos quando comem estes alimentos, depositando e misturando os ingredientes no próprio chão dos terreiros. É costume, ainda, lambuzarem a si e aos com que compartilham de seu alimento. Muitas vezes querem comer pequenos insetos e répteis que encontrem nas casas de culto, sob o argumento de que nas matas comem destes animais. São brincalhões e falam uma linguagem infantilizada do tipo tati-bi-tati. Os caboclos adultos do sexo masculino tem o semblante carrancudo. Sua voz, normalmente faz-se ouvir claramente. Descem em geral estalando os dedos e emitindo um som sibilante. Quando em reuniões, onde não haja o batuque dos tambores, dançam em círculo, dobrando um joelho e deixando a outra perna atrás. Nas festas a sua coreografia muda assumindo os passos dançados pelos “caboclinhos” dos folguedos populares do carnaval pernambucano. As caboclas tem uma expressão facial de maior suavidade e, normalmente, falam uma linguagem onde se intercala no início das palavras a sílaba si.

Os Mestres
“É morão que não bambeia
É morão que não bambeia
Os Mestres da Jurema
É morão que não bambeia.”
Gira de Jurema)

Outra categoria de entidades que recebem culto na Jurema é a dos Mestres. Ao que parece o termo mestre é de origem portuguesa, onde tinha o sentido tradicional de médico, ou segundo Câmara Cascudo de feiticeiro. De forma geral, os mestres são descritos como espíritos curadores de descendência escrava ou mestiça (índio com negro ou branco com uma das duas outras raças). Dizem os juremeiros que os mestres foram pessoas que, quando em vida, trabalharam nas lavouras e possuíam conhecimento de ervas e plantas curativas. Por outro lado, algo trágico teria acontecido e eles teriam “se passado” (morrido), se encantando, podendo assim voltar para “acudir” os que ficaram “neste vale de lágrimas”. Alguns deles se iniciaram nos mistérios e “ciência” da Jurema antes de morrer, como o mestre Inácio ou Maria do Acais e toda a linhagem de catimbozeiros de Alhandra, que após um ritual denominado “lavagem” ganha um lugar nas cidades espirituais e passam a incorporar nos discípulos que formaram. Outros adquiriram esse conhecimento no momento da morte, pelo fato desta ter acontecido próximo a um espécime da árvore sagrada. No panteão juremista, existem vários mestres e mestras, cada qual responsável por uma atividade relacionada aos diversos campos da existência humana (cura de determinadas doenças, trabalho, amor…). Há ainda aqueles especialistas em fazer trabalhos contra os inimigos. Nas mesas, as representações das entidades relacionadas nesta categoria são as mais elaboradas geralmente possuindo o estado completo e a “jurema plantada”; em especial a do “mestre da casa”, aquele que incorpora no juremeiro, faz as consultas e iniciam os afilhados nos segredos do culto. Por tudo isso esse mestre é carinhosamente chamado de “meu padrinho”. Cada mestre está associado a uma cidade espiritual e a uma determinada planta de “ciência” (angico, vajucá, junça, quebra-pedra, palmeira, arruda, lírio, angélica, imburana de cheiro e a própria Jurema, entre outros vegetais), existindo ainda alguns relacionados a fauna nordestina (mamíferos – guará, preá; aves – gavião, periquito, arara, pitiguarí; insetos – abelhas, besouro mangangá; répteis). Para os mestres relacionados à outra planta que não a Jurema, é estas plantas (quando arvores) que tem seus trocos plantados nas mesas dos discípulos.

“No outro mundo, do lado de lá!
No outro mundo, do lado de cá!
Tem um pé de árvore, Angico real.
Tem um pé de Jurema, tem um pé de Jucá,
Tem um pé de árvore, Angico Real.”

“Ai meu Deus, Mestre Angico sou eu.
Ai meu Deus, Mestre Angico será.
Os anjinhos tão no céu, a sereia no mar.
Ai meu deus mestre Angico Reá.”
(Jurema de Mesa)