Como Orunmila alimentou os primeiros seres humanos

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Olodumaré, o deus criador, olhou Ilu Aiye, o planeta Terra, e viu apenas a terra, a água, os montes e vales. Era um local vazio, e ele chamou Orunmilá, também chamado Ibikeji Olodumaré, a segunda pessoa após Olodumaré.

E disse a ele:

Prepare seus instrumentos de adivinhação, consulte o oráculo Ifá. Quero que a Terra seja povoada de homens e mulheres, que terão muitos filhos. Orunmilá consultou os ikin e falou que os homens precisariam comer para sobreviver na Terra. Olodumaré disse: “Beeni” (muito bem), e mandou que Orunmilá perguntasse aos Orixá quem saberia o que seria dado aos homens. Exu disse que ele sabia qual a comida que os homens comiam. Os primeiros seres humanos chegaram a Ilu Aiye e Exu deu a eles madeira para comer. Em uma semana estavam todos de volta ao Orun. Quando Olodumaré viu os homens de volta, disse: Mas já voltaram tão cedo? O que aconteceu? Os homens responderam que Exu dera a eles madeira para comer, que suas barrigas tinham furado, e todos eles tinham morrido. Olodumaré disse: “Beeni”. Chamou novamente Orunmilá e disse a ele que perguntasse aos Orixá quem saberia o que se dava de comer aos homens. Obatalá, rei das roupas brancas, e Yemonja, rainha das águas rasas do mar, disseram que eles iriam cuidar disso. Homens e mulheres voltaram à Terra, e Obatalá e Yemonja deram a eles água pura e fresca para beber. Em uma semana estavam todos de volta ao Orun. Quando Olodumaré viu os homens novamente ali, perguntou: Mas já voltaram tão cedo? O que aconteceu desta vez?
Os homens responderam que Obatalá e Yemonja deram a eles muita água fresca para beber. Seus corpos derreteram e eles voltaram ao Orun. Olodumaré disse: “Beeni”. Chamou Orunmilá e disse a ele que consultasse novamente o oráculo Ifá, que desta vez os homens só viriam morar no Ilu Aiye quando houvesse certeza de que haveria para eles comida com fartura, para que só voltassem ao Orun na hora certa, depois de uma vida longa e proveitosa, plena de realização e alegria, deixando em Ilu Aiye filhos e netos.
Orunmilá respondeu a Olodumaré que havia no Orun um ser estranho, chamado Osanyin, que poderia resolver o problema. Osanyin foi chamado, e prontamente jogou para Ilu Aiye muitas cabaças cheias de sementes de grãos, de frutas, de favas, de todo o tipo de vegetação que hoje cobre o mundo. Jogou primeiro plantas de crescimento rápido, como “ewa”, o feijão, “agbado”, o milho, “ewe tete”, o caruru, “yanrin”, a verdura, para que os homens tivessem o que comer logo que chegassem à Terra. E nesse atirar de sementes, também Osanyin caiu na Terra, e lá brotou e ficou morando, um ser estranho como um tronco, um pé de pau, sem pai nem mãe, um ser da Terra, folha e tronco ele também.
Os homens vieram então em definitivo, e se alimentaram das comidas nascidas das sementes do Orun. Comeram o que os Orixá comem, compartilharam seu cardápio e seus gostos, muita pimenta, muito inhame, muito milho, frutas e verduras, cebolas e tomates. E beberam muita água fresca, emu (vinho de palma) e shekete (cerveja de milho)..
Olodumaré ficou feliz e disse aos Orixá: Os homens morarão em Ilu Aiye, e nos adorarão. Terão muitos filhos e sua descendência povoará a Terra. Também para lá enviaremos animais, que os seres humanos sacrificarão para nós, durante os Ebo Etutu. A carne destes animais será cozida em uma boa sopa bem apimentada, que os homens nos oferecerão com muito ebá e iyan, e juntos compartilharemos este alimento pleno de Axé. E em alguns anos as árvores de obi darão frutos e comeremos juntos o obi semanal.
E, em terra Yorubá, os pais contam aos filhos este Itan Ifá, e dizem a eles que quando um homem acorda (chega ao Ilu Aiye), primeiro ele pega um pedaço de madeira e esfrega nos dentes (madeira especial chamada Pako, com propriedades anti-inflamatórias e anticépticas, que substitui a escova de dentes), depois enxágua a boca com muita água fresca. Só então é que vai se alimentar, sempre chamando os Orixá para compartilhar sua comida, com a frase:

“WA BA WA JEUN, OLUWA”
(venha comer conosco, Deus).
ASE, ASE, ASE!